Perfil de um aeromodelista

Edição 4- 31/10/2013
Autor: Isaac Gonçalves

     Meu nome é Isaac Gonçalves, nasci em 10 de março de 1951 na cidade do Rio de Janeiro. Fui morar em Nova Iguaçu com seis anos de idade.

     No inicio dos anos 90 fui com a família para a Barra da Tijuca e em 2005 retornei para Nova Iguaçu, onde estou até hoje.

    Sou sócio da ACA desde 1977, com a matrícula 101 e BRA, antigo PT, de número 792. O número do BRA é de 1989, ano que me associei à UFA. Na UFA era obrigatório possuir o PT para voar, exigência que não existia na ACA.

   Com seis anos de idade, a minha paixão eram as pipas. Eu passava as tardes soltando uma pipa que só existia na minha mente. Quem olhava não entendia nada e achava pura maluquice de criança. A minha mãe dizia que eu soltava pipa toda noite em sonhos. Eu gritava, chamava os colegas pelos nomes e corria atrás de pipa voada. O dia que ela me deu um “dez dos pequenos” foi um dos dias mais felizes da minha infância. Ela ria muito quando contava para os meus filhos pequenos essas passagens da infância do pai deles.

     Acredito que com nove anos ganhei um álbum de figurinhas chamado “A Locomoção Através dos Tempos” e foi a partir desse álbum que comecei a admirar aviões.

      Eu me lembro perfeitamente que na contracapa existia o desenho de um avião quadrimotor, com os motores e as hélices voltadas para o bordo de fuga das asas, que eu não cansava de olhar. Resolvi então fazer um avião. Naquela época, eu já sabia fazer e soltar pipas e iniciei a construção de um avião de varetas de bambu. Não sei quanto tempo eu gastei para terminar, mas demorou pra caramba. Acho que tinha quase um metro de envergadura. Era todo varetado, mas só que de varetas finas de bambu. Imagine fazer as nervuras de bambu. O perfil das nervuras era único. Elas foram curvadas conforme um arco. A fuselagem também era toda varetada de bambu. Ela se assemelhava aos modelos escala de voo livre a elástico. Ele era todo recoberto (entelado) de papel fino usado nas pipas. Providenciei um motor. Instalei um motor de corda retirado de um carrinho meio velho e fiz uma hélice que não me lembro mais o aspecto. Os pneus do trem de aterrissagem foram também retirados do carrinho meio velho. Tudo pronto, eu girava a borboleta da corda (operação conhecida como dar corda) e soltava o avião (no chão, claro). A hélice girava e o avião nem saia do lugar. Ainda bem, pois pelo que me lembro o avião não possuía nenhuma superfície móvel de comando. As únicas certezas que ficaram desse primeiro avião foram que ele nunca voou e que eu fiquei arrasado com isso.

         Foi então que vendo aquela coisa que se assemelhava a um avião, que uma vizinha me deu, de presente, uma caixinha que tinha um aviãozinho, como ela me disse, para montar. Realmente era bem pequeno. Talvez no máximo 30 cm de envergadura. Vinha com instruções e uma planta bem simples e também uma madeira muito leve que eu nunca tinha visto e que se chamava balsa. Um tarugo como fuselagem, dois pedaços de balsa como asa e mais dois como leme e estabilizador. Foi fácil de montar. Depois amarrei dois pedaços de linha (linha 10 de pipa) em um tarugo de madeira pequeno e em uma das asas e fui para a rua testar o avião. Sem saber eu tinha usado a forma de voar do já existente U-control (V.C.C.). Tinha que ficar girando rápido para o aviãozinho voar. Esse realmente voava. Caramba, que emoção. Eu me lembro que foi o maior sucesso lá na minha rua. Todos os meus colegas queriam também voar. Fazia fila. Todos os colegas queriam um igual, o problema era a matéria prima. Aquela madeira super leve. Eu fui a todas as madeireiras. Ninguém tinha e o pior era que ninguém conhecia. Perguntei ao meu pai e ele também nunca tinha ouvido falar. Comecei a duvidar do que estava escrito nas instruções. Aquela madeira chamada balsa não existia. Mas um dia, alguém me deu o endereço de uma loja que vendia aeromodelos.

             A loja ficava no Tabuleiro da Baiana, no centro da cidade e se chamava Hobbylandia, fundada pelo Morimoto. Um aeromodelista de origem japonesa e que foi o primeiro campeão de voo livre no Brasil. Nem informações pelo telefone e nem internet naquela época (1961 ou 1962). Peguei o Guia REX do meu pai e fui procurar.

             Estudei o caminho durante alguns dias e fiz um mapa com os nomes das ruas como segurança e decorei todo o trajeto de ida e de volta. Eu nunca tinha ido ao centro da cidade e muito menos sozinho. Depois de algum tempo tomei coragem e fui conhecer a tal loja. Desci do ônibus na Praça Mauá e andei muito até a Senador Dantas esquina com a Almirante Barroso, onde ficava a Hobbylandia. Fui na parte da manhã e só saí de lá na parte da tarde. Fiquei maravilhado. Eu nunca tinha visto nenhum aeromodelo. E existiam vários pendurados pelo teto. Cada um mais legal do que o outro. O vendedor (que não me lembro mais quem era) me perguntou algumas vezes o que eu queria comprar, mas eu dizia que só estava olhando. Eu queria comprar todos, mas na realidade eu não tinha dinheiro para comprar nenhum deles, mesmo o mais barato. Tinha também outra fascinação minha. Autorama. Várias peças avulsas, pistas, tudo para montar um Autorama por partes. Aquilo para mim era muito bom, pois comprar um Autorama era impossível e ganhar um de aniversário ou de Natal também. Era muito caro. Esse era o primeiro tipo de Autorama. Aquele que tinha os contatos da pista instalados pela sua espessura e os contatos no carrinho eram de folha de cobre rígido. Em pouco tempo com o atrito os contatos da pista faziam uma vala nos contatos do carrinho que parava de funcionar. Com muita economia consegui comprar duas seções de pista.

             Foram as únicas que consegui comprar. Ainda as tenho guardadas. Contatos tipo cordoalha de cobre surgiram muito tempo depois. Quanto aos aeromodelos, eu não achei caro, mas só tinha o dinheiro da passagem de volta.

              Fui à Hobbylandia mais umas três ou quatro vezes para decidir qual aeromodelo eu ia comprar. O vendedor me deu um folheto com alguns planadores para iniciantes e eu ficava admirando todos e não me decidia por nenhum. Eu queria todos, mas não tinha dinheiro.

          A solução foi começar a trabalhar em um escritório de contabilidade (eu já tinha curso de datilografia) nas férias. Juntei o dinheiro necessário e parti um dia para a Hobbylandia para comprar o meu primeiro aeromodelo. Quando cheguei lá, a loja estava fechada e tinha um papel com o novo endereço. Av. Rio Branco, Edifício Galeria Central segunda sobreloja. Foi em uma banca de jornal que me informei onde era o novo endereço. Chegando na nova loja, vi que tinha muito mais aeromodelos expostos e fiquei olhando tudo. Achei melhor não comprar, admirar e avaliar os outros modelos que eu não conhecia. Saí todo contente, pensando em todos aqueles aeromodelos e quando cheguei na rua entrei em pânico. Aquela não era a Av. Rio Branco. Eu estava perdido. Fiquei apavorado. Voltei para a Hobbylandia e não consegui achar a Av. Rio Branco. Eu não entendia o que estava acontecendo. Depois de ter passado um tempão apavorado, acabei entendendo que eu havia saído por outra rua, no caso a antiga Treze de Maio. Eu não sabia que o prédio tinha acesso por duas ruas. O dinheiro que eu tinha era suficiente para comprar um planador, mas eu já pensava em um aeromodelo com motor de verdade.

            Em outra ida à Hobbylandia comprei o meu primeiro aeromodelo. Era um planador chamado Dumbo, seguindo as orientações do vendedor que também me vendeu a cola e o dope. Aquele tipo de cola e o dope eram coisas novas para mim. De cola eu só conhecia a de madeira usada para fazer o cerol.Para montar o planador eu precisava de uma bancada, lixa, faca afiada, alfinetes, etc. Eu não tinha nada disso. Apelei para o meu pai que improvisou um pedaço de madeira sem empeno, conforme eu havia solicitado, um martelo pequeno, os alfinetes e o papel impermeável que era o conhecido papel de encapar os cadernos da escola.

             Comecei a construção em uma tarde e não queria mais parar. Naquele dia minha mãe quase me bateu porque eu não queria comer, tomar banho e muito menos estudar. Eu só queria ver aquele avião pronto.

             Vieram então as cobranças. Eu só podia fazer o avião depois de estudar. Tinha que parar para comer e tinha que ter hora para parar. Quando parasse tinha que deixar tudo limpo e arrumado. Limpar pó de balsa espalhado por uma casa é uma loucura.

           Absorvi a tarefa de varrer a casa todos os dias na parte da tarde. Mas eu não me importava. Varria a casa todos os dias e guardava todos os apetrechos que eu usava atrás de um armário quando chegava a hora de parar. Tudo era diferente. Muita coisa eu não entendia. Por que tinha que colocar aquele papel impermeável por cima da planta? Por que tinha que passar o “dope” naquele papel muito fino, que para mim era papel de balão japonês. Por que ele esticava tanto? E com certeza aquelas minhas dúvidas eram explicadas nas instruções que eu com certeza não havia lido.

        O Dumbo ficou pronto e juntamente com os colegas da rua fomos para o aeroclube de Nova Iguaçu fazer o primeiro vôo. Naquela época a pista era de mato. A linha para o lançamento tinha um comprimento já calculado, mas eu aumentei esse comprimento e com isso ficou difícil do planador conseguir levar a linha até a posição vertical. Mas mesmo assim ele voava muito bem e era muito legal. Mas cada pouso no mato aparecia um furo ou rasgo na entelagem e com isso os vôos foram ficando ruins porque ele começava a girar ao invés de subir em linha reta. Fiz uns consertos que só pioraram, pois ele foi ficando pesado. Talvez eu ainda tenha a planta do Dumbo.

           Comecei então a desejar noite e dia um aeromodelo com motor, mas o preço total era muito maior do que eu conseguia ganhar trabalhando nas férias e economizar não comprando merenda e não indo ao cinema. A solução foi apelar para a minha mãe outra vez. O item mais caro era, disparado, o motor. Eu me lembro que o preço assustou a minha mãe. Eu sei que um dia eu fui com ela na Hobbylandia para comprar tudo. Aquele foi, de novo, o dia mais feliz da minha vida.

            Comprei um aeromodelo chamado Tamanco A, um motor “Diesel” WB 1,5 cc, a hélice, os cabos e a manete. No ônibus eu já estava abrindo os pacotes. Montar aquele avião foi um desafio e ao mesmo tempo a maior emoção que eu já tinha tido. Eu ainda tenho a planta do Tamanco A guardada em algum lugar.

            Comprei os componentes para fazer o combustível. Querosene, éter e o óleo de rícino, que não podia ser o das farmácias. O vendedor me explicou que o vendido nas farmácias continha açúcar.

                    Naquela época as farmácias vendiam normalmente éter em vidros de um litro. Fiz um montante conforme as instruções e rabiscos do vendedor e prendi em um caixote. Instalei a hélice e fui para a minha rua “amaciar” o meu motor. Logo todos os colegas estavam à minha volta. E quem disse que o motor funcionava? Era só retrocesso e cacetada no dedo que estava enrolado em um pano, mas mesmo assim a pancada era violenta. Quem já teve que amaciar esse tipo de motor sabe muito bem que não estou exagerando. Naquele primeiro dia o motor não funcionou. Foi só retrocesso. Tive que parar porque o dedo estava muito inchado e todo lanhado. Eu acho que o motor acabava amaciando só pelo retrocesso.  Depois de muita, mas muita cacetada no dedo, o motor passou a funcionar. Mas o tempo de amaciamento necessário era muito longo e eu levava o caixote para a rua quase todo dia. O barulho chamava muito a atenção porque não existia silencioso. Foi então que num dia desses, eu já acostumado a fazer o motor pegar, dono da situação, que apareceu o pai mais chato, bravo e temido da rua. Ele ficou curioso e foi se aproximando do motor que estava funcionando. Aí, de repente ele apontou o dedo para o motor através da hélice (hélice marca Mobral) feita de madeira de dormente de linha de trem, que girava a mil. Bem, a pancada no dedo daquele senhor que metia medo em todos nós foi violenta. O motor parou. A garotada que estava ao redor sabia o quanto estava doendo e todos começaram a gargalhar. Eu fui o único que fiquei sério. Antes dele envolver o dedo machucado com a outra mão, eu reparei que já estava muito inchado e ensangüentado. Nunca mais ele foi o mesmo. Nunca mais brigou com nenhum de nós e eu notava que ele tinha um certo receio de mim.

               A construção do Tamanco A ia se desenvolvendo. Eu já estava acostumado com o dope, a cola e a balsa. Tive que pintar o avião. Logo notei que fazer pintura era a única tarefa que eu não gostava no hobby. A tinta tinha um cheiro muito ruim. Eu não conseguia fazer com que a pintura ficasse homogênea. Eu era horrível em pintura, aliás ainda. Até hoje não gosto de pintar por dois motivos simples: As poucas pinturas que fiz ficaram péssimas e talvez por não ser capaz de fazer uma pintura, por mais simples que seja, ser considerada por mim aceitável. Por isso eu evito esta atividade. Ainda tem os empecilhos da preparação do local, a sujeira ao redor, a humidade do ar, a limpeza das peças. Eu considero muita perda de tempo para pouco trabalho efetuado.

                 O Tamanco A ficou pronto e parti para o Aterro da Glória, onde existia a pista de aeromodelos informada pelo vendedor da Hobbylandia. Fui em um sábado na parte da manhã. O aeromodelo chamava a atenção e muitos me paravam para fazer perguntas óbvias para mim, como por exemplo, se ele voava.

               Geralmente o pessoal perguntava e já ia metendo o dedo pela asa. Se você não fosse rápido furava a asa. Vinha a desculpa que não adiantava nada. Ônibus Nova Iguaçu – Praça Mauá, rabisco do caminho de ida e de volta e muita disposição para ir a pé da Praça Mauá para o Aterro. Atravessar as pistas do Aterro com bolsa à tira colo no ombro e o aeromodelo na mão.

                Lá eu tive a satisfação de conhecer o instrutor indicado pela Hobbylandia. Era o Seu Pedro. Uma pessoa calma, séria, com muita paciência para ensinar na teoria e na prática o hobby. Eu aprendi a voar com ele. Como não deixar os cabos afrouxarem quando o avião estava em vôo. Como evitar que os cabos fizessem o “e” fatal que os inutilizava (porque naquela época os cabos eram monofilamento de aço. Era raro ver um “cabo trançado” importado). Como fazer funcionar o motor. Como ajustar a borboleta do cabeçote e a agulha de combustível para o motor não parar em vôo e principalmente na decolagem. Como decolar corretamente e como pousar. O porquê de decolar contra o vento. Tinha também a dica principal que era olhar fixamente para o avião voando. Se você olhasse para outro lugar ficava logo tonto. Todos esses ensinamentos eram de graça e o Seu Pedro ficava todos os finais de semana passando calmamente os seus conhecimentos para os vários garotos ávidos em aprender a voar. O Seu Pedro era muito legal. Com certeza ele deixou muita saudade, ensinou a voar a um incontável número de aeromodelistas e foi único na sua forma de ensinar para todos nós aqui no Rio de Janeiro. Para quem não teve a oportunidade de conhecê-lo, ele foi o pai do nosso colega Marcio.

                Depois de algum tempo eu já colocava o motor em funcionamento, ajustava para a rotação mais alta, decolava e pousava com o Seu Pedro só observando. Quando me senti confiante e o Seu Pedro me liberou para voar sozinho, achei que já era hora de comprar outro aeromodelo para voar na pista maior para cabos de 18 a 21 metros. Considerada a elite do U-control no Aterro. Quem já sabia voar e voava bem, só tinha aviões para a pista maior do Aterro. Iniciantes voavam na pista menor. Os motores de 1,5 cc voavam com cabos de 15 metros, na pista menor.

          O meu segundo aeromodelo foi o Tamanco B e o motor para ele foi o WB 2,5 cc Super. Os motores WB eram de fabricação nacional. A fábrica era em Apucarana no Paraná. Os motores importados existentes eram Enya, McCoy, Super Tigre, OS Max, Cox e Fox, mas estes ainda estavam fora dos meus planos devido aos preços elevadíssimos aqui no Brasil, sem contar com a dificuldade de se conseguir um.

           O aeromodelismo é um hobby considerado caro apenas no Brasil. O governo, através dos órgãos controladores, entende que é brinquedo e por isso qualquer item de aeromodelismo tem uma taxa de importação elevada. Os lojistas se justificam dos altos preços, por eles praticados, porque colocam a culpa no preço do dólar e nas taxas de importação. Na contabilidade deles o preço do dólar nunca cai e as taxas de importação também.

              Atualmente estamos vivendo uma certa facilidade e preços um pouco acessíveis de comprar no exterior, mas acredito que essa situação está para acabar a partir do momento que uma conhecida grande loja virtual de Hong Kong instalar uma filial no Brasil. E a previsão é para 2012, 2013.

             Montei o Tamanco B e voei muito tempo. Eu já fazia loops. Voava de dorso arriscava um oito vertical. Claro que tudo não era essa maravilha. Logo nos primeiros voos do Tamanco B cometi um erro básico na decolagem devido ao motor ter parado (outro erro básico) e acertei o motor perpendicularmente na pista. O resultado foi uma hélice quebrada e o pior foi ter constatado que o eixo do motor empenou e precisava ser substituído.

              Comprei um eixo novo na Hobbylandia. Eu mesmo abri o motor e fiz a troca. Ainda tenho o motor 2,5cc super e o eixo empenado. Aprendi a voar mesmo foi com o Tamanco B, mas um dia eu quebrei. Como a queda não afetou o motor, comprei outro modelo, o Ciclone. O Ciclone voava muito melhor, pois tinha perfil simétrico, asas que se afinavam para a ponta (tapered). Quando se voava de dorso, não era necessário tanto comando para ele voar nivelado. Eu também voei o Ciclone por muito tempo. Esse eu não quebrei e ele foi sendo quebrado ao longo dos anos pelo manuseio na casa dos meus pais, até que removi o motor e joguei fora o pouco que ainda restava dele.

                Com 17 anos ingressei na Escola de Marinha Mercante do Rio de Janeiro, atualmente CIAGA e me formei em 1971 com 20 anos.Comecei a viajar para os Estados Unidos da América, New York. A cidade que tinha a loja mais famosa de aeromodelismo do mundo naquela época. A America’s Hobby Center.

                A minha primeira ida a America’s Hobby Center não foi nada diferente da primeira ida à Hobbylandia. Cheguei bem cedo e só saí de lá quando estava para fechar e não comprei nada. Aquilo sim que era loja de aeromodelismo. Tinha muito motor exposto, muito kit montado pendurado no teto. Muita coisa que eu conhecia, mas não tinha como comprar. Estava tudo ali na minha frente. Fiquei maluco de satisfação. Eu já tinha feito uma lista antecipadamente, mas depois que vi aquilo tudo a tal lista praticamente triplicou de tamanho e de valor.

             No outro dia fui lá e comprei um motor Enya 35 glow (considerado excelente), um Nobler (famosíssimo) e claro, manete e cabo trançado marca Pylon Brand (a melhor marca). Ferramentas X-acto que tenho até hoje, lâminas as mais variadas, combustível Fox. Resumindo no linguajar de hoje, fiz a festa. Naquela época surgiu a Tower Hobbies, mas eu nunca ia à Chicago.

            Durante os mais de dez anos que viajei para os Estados Unidos eu comprei vários kits, motores e peças na America’s Hobby Center. Tenho ainda uma grande quantidade das notas fiscais dessas compras.

            Durante a viagem de volta eu marcava cada pedaço de balsa com uma ou duas letras do nome do kit, enrolava todas as plantas juntas, enrolava todas as chapas de balsa e peças em um pacotão e desmontava as caixas. Isso tudo era para passar pelo portão dos portos sem ter problema. As caixas eram grandes e chamavam muito a atenção. O valor não era alto, mas para mim cada pecinha daquela era um tesouro. Quando perguntavam eu dizia que era madeira, o que não era mentira. Eu deixava sempre um lado do pacote exposto para ser de fácil visualização. As plantas eram simplesmente desenhos. As caixas de papelão nem precisava explicar. Todo o hardware eu espalhava pela bolsa. Os motores eu tirava das caixas e colocava nos bolsos da calça. Nas caixas dos motores eu colocava qualquer coisa dentro. Depois quando chegava em casa acontecia todo um trabalho de separação, montagem das caixas e acondicionamento.

              Como eu permanecia em um mesmo navio quase um ano; passei a construir os aeromodelos a bordo. Ainda não existia nem a ideia dos ARFs. Eu usava um camarote desocupado do navio. Só Nobler eu devo ter construído uns cinco.
Eu também comprava kits e peças para os poucos colegas que eu já tinha. Não me interessava ganhar dinheiro ou tirar proveito da situação. Eu ficava satisfeito de trazer alguma coisa para os amigos. E claro que levei uns calotes de uns poucos ditos amigos.

             Passei também a usar monokote ao invés das incômodas tintas. Eu construía e amaciava os motores no navio. Quando chegava no Brasil eu levava para casa. O problema era que os modelos U-control tinham a asa colada na fuselagem. Isso era incômodo para transportar. Mas logo resolvi esse problema facilmente. Comprei o meu primeiro radio controle.

           Alguns colegas do Aterro não conseguiram ou talvez não se adaptaram à nova tecnologia do radio controle proporcional. O mesmo fato ocorreu nos Estados Unidos quando surgiu o radio controle proporcional e muitos aeromodelistas de radio controle monocanal não se adaptaram aos controles proporcionais. Mas eu felizmente não tive esse problema e adquiri um Futaba 6 canais modelo FP-6DN. Lançamento japonês no mercado americano. Já era proporcional, mas o servo do motor girava no sentido inverso e tinha um rótulo vermelho para diferenciar dos outros servos que tinham rótulo preto. Uma verdadeira joia da eletrônica. Esse rádio está guardado dentro da sua caixa original com todos os acessórios e manual excetuando-se as baterias. E como um receptor e quatro servos nunca pode ser o mínimo; fui comprando receptores e servos.

             Tenho ainda vários receptores e servos guardados da época dos rádios AM e FM. O meu primeiro aeromodelo controlado por radio foi o Fledling fabricado pela Sterling. Comprei, para ele, um motor K&B 40. Motor amaciado no navio e o modelo também construído no navio. Infelizmente eles se perderam no final da década de 80 por pane da bateria, durante um vôo no Campo dos Afonsos. Aliás, eu quebrei vários modelos nesses primeiros anos devido a problemas nas baterias tanto do transmissor quanto do receptor. Era a praga do efeito memória das pilhas de nickel cádmium. Isso acontecia porque eu ficava uns três meses sem voar, mas as baterias descarregavam e eu ia sempre carregando sem reciclar. Eu não sabia da necessidade de reciclar.

               Eu construía sem parar no camarote vago. Praticamente em uma viagem de três meses eu finalizava um e levava logo para casa. Para voar rádio controle era necessário um aprendizado muito mais complexo do que o aprendizado para U-control. Fiquei um pouco perdido porque eu não tinha contato com quase nenhum aeromodelista. Mas pergunta daqui, pergunta dali, acabei conhecendo o Clóvis. Outro aeromodelista repleto de conhecimentos práticos e teóricos e sempre pronto a ajudar os iniciantes do hobby.

             Quando fui à sua casa levar o Fledling para ele dar uma olhada; reparei que ele tinha muitos aeromodelos prontos, mas todos eram de dois canais (profundor e leme). O meu já era o conhecido “full house” que significava que possuía os quatro canais de controle básicos de voo de um avião. Controle do motor, ailerons, profundores e leme.

          Combinamos um dia e fomos tentar o primeiro vôo do Fledling no aeroclube de Nova Iguaçu. Motor funcionando, comandos checados, o Clóvis começa a acelerar e assim que o avião sai do chão um mato mais alto joga a asa direita para baixo sem que ele consiga evitar que o profundor toque o chão e faça uma pequena avaria na união entre profundor e fuselagem. O Clóvis foi irredutível não me deixando consertar a avaria. Levou o Fledling para a casa dele e três ou quatro dias depois foi lá em casa me entregar o avião perfeitamente consertado.

            Devido as minhas viagens, perdi contato com o Clóvis e tive que procurar outra pessoa para me ensinar a voar R/C.Também não sei mais como me indicaram o Guaracy Pedra. Telefonei para ele e fui até onde ele morava na Rua Fadel Fadel no Leblon.

             O Guaracy era piloto amador e voava radio controle desde que surgiu o monocanal. Ele tinha modelos conhecidos como escapamento que usavam um elástico para acionar o comando. O elástico enrolado fazia o papel do motor elétrico dos servos atuais. Só tinha um porém: Assim que se lançava o modelo da mão, nada de correr pista, um rápido toque no único canal existente deslocava o leme para aquele lado. À medida que o elástico ia desenrolando, o piloto tinha que segurar mais demoradamente o stick na mesma posição, para que acontecesse o comando. Fazer manobras só com o leme não era nada fácil. Os pousos eram sempre de alto risco. Baixa velocidade do modelo associado a um comando muito lento. Era realmente um desafio voar e um super desafio fazer um pouso decente.

             O Guaracy era como o Seu Pedro e o Clóvis. Muito calmo, cheio de teoria e de prática. Ele já era sócio da ACA e combinamos de nos encontrar no Campo dos Afonsos. Ele também tinha paciência para ensinar. É outro aeromodelista que deixou saudades.

           Comecei a aprender a voar rádio no Campo dos Afonsos, em 1973, antes de existir o Musal. No Campo dos Afonsos a pista que usávamos era a do primeiro acesso à pista principal. Aquele acesso que fica em frente ao primeiro hangar, na entrada próximo à cantina. Depois, por desentendimentos que não conheço bem, fomos impedidos de entrar no Campo dos Afonsos e passamos a usar uma área ao lado do portão 5 do Autódromo de Jacarepaguá. Lá existia inclusive uma sede e uma área coberta.

           O Guaracy continuou a me ensinar a voar. Eu saía para uma viagem e só voltava depois de três ou quatro meses. Isso me deixava chateado porque eu ficava sem a continuidade tão importante naquela fase do aprendizado. Mas eu não desistia. Eu mandava telegramas para a minha irmã Ana pedindo a ela para que colocasse as baterias do transmissor e do receptor para carregar. Ela carregava tudo direitinho. Eu deixava tudo escrito e explicado com desenhos e cada tomada tinha um papel colado para que ela não ligasse nada errado. Quando eu chegava, dias depois, estava tudo carregado. Eu só não sabia que aquelas solicitações causavam um tremendo medo na minha irmã. Foi o que ela me disse há algum tempo atrás. Ela tinha medo de fazer qualquer coisa errada e eu brigar com ela. Isso nunca me passou pela cabeça, mas eu me desculpei, mesmo sendo muito tempo depois. Com tudo pronto eu telefonava para o Guaracy e ele dizia aonde iríamos voar. Passamos a voar na área de terraplanagem para o futuro aeroporto do Galeão. Era tudo barro, mas a área era imensa. Só tinha um pequeno problema. Algumas vezes a frequência de comunicação das chatas que faziam dragagem das áreas marinhas adjacentes interferiam com a frequência do rádio controle e acontecia a única queda que não se podia fazer nada. Você ficava olhando o modelo realizar manobras loucamente até mergulhar na água salgada. É, o meu Fledling deu um mergulho desses, mas para minha sorte tinha um pescador nas imediações que recuperou ele para mim, mas antes me fez o favor de ao retirar o modelo da água, segurar por apenas uma das asas e dessa forma aumentar mais um pouco a avaria (quebrou a asa no meio). Bem, o saldo foi o Fledling quebrado e salgado e a eletrônica toda em curto. Servos, receptor, interruptor e bateria viraram sucata.

                Cheguei em casa arrasado, mas fiz a única coisa que podia ser feita: Dei um banho de água doce caprichado e demorado no Fledling, com o objetivo de remover todo o sal. Colar balsa salgada é quase impossível. Eu continuava a viajar e a construir. Reparei o Fledling e continuei o meu aprendizado nele. No final de 1976, parei de viajar pela primeira vez e comecei a fazer faculdade de engenharia mecânica, que interrompi em 1979. Eu e o Guaracy passamos a voar em uma área ao lado do kartódromo, lá no Recreio dos Bandeirantes e também na ACA ao lado do Autódromo. Montei, voei e quebrei o Kwik Fli III do Phill Kraft, fabricado pela TOP FLITE. Depois vieram o Gator Flea, que construí uns cinco kits e mais uns três ou quatro com algumas modificações. Esse kit acabou sendo construído com a fuselagem em fibra de vidro e recebeu o nome de “Cristina”, em homenagem, acredito à namorada do seu idealizador/modificador. Alguns colegas da ACA compravam o Cristina e achavam o máximo. Construí também a partir da planta comprada alguns “Minare”, que era o Curare para motor 40. No Minare a asa e o profundor eram de isopor. Kaos 40 construí uns três, todos a partir da planta. Um deles eu fiz as nervuras de isopor, buscando um peso final menor. Construí muitos kits e quebrei todos devido aos mais variados motivos. Mas o campeão dos motivos era mesmo a famosa “falha dígito motora”.

             A partir de 1980 parei de viajar pela segunda vez e aí surgiu um problemão. Eu quebrava e não tinha mais a America’s Hobby Center para comprar outro kit. Fazer compras pelo correio era muito complicado e uma operação de alto risco. A chance de você receber o produto era mínima. Ainda existia o problema maior que era o pagamento em dólar chegar ao destino. Envolver o dólar em papel carbono era a única solução, mas mesmo assim a carta valiosa dificilmente chegava ao destino. O pessoal do correio sempre descobria. Como eu já copiava todas as peças dos kits em cartolina, passei a comprar a palsa (apelido derivado da madeira comum (pau) com a balsa que mesmo assim era caríssima na Hobbylandia). De vez em quando aparecia por lá uma leva de balsa equatoriana levíssima. Mas eu acho que os vendedores avisavam aos modelistas conhecidos e a balsa equatoriana nem esquentava na Hobbylandia. Para nós, simples mortais, a fartura era de palsa e arixixá. O bom dessa fase era que não havia necessidade de escolher a folha de balsa mais leve. Isso era pura perda de tempo. Todas, todas sem exceção eram duras e pesadas.

               A cola de cianoacrilato ainda não tinha emplacado. Usávamos apenas a cola e o dope vendidos na Hobbylandia. Os modelistas mais antigos fabricavam a própria cola comprando os componentes separadamente. Ficava muito mais barato. O preço elevado das lojas brasileiras sempre foi comum no nosso hobby. Nessa época o hit era asa de isopor e eu passei também a fazer asas de isopor. O tempo de construção era bem menor. Construí o meu próprio cortador de isopor (ainda tenho este cortador funcionando). Não sei quantas asas de isopor eu fiz, mas foram muitas.

           Passei a ser sócio da ACA em 1977, depois de frequentar o clube por mais de dois anos. Existia uma demora para que o pretendente a sócio tivesse a sua admissão aprovada pela diretoria do clube.

          Comprei alguns kits de sócios que vendiam no clube e fui fazendo cópias das plantas e dos kits. Quando eu gostava de um modelo, tanto pela forma do seu vôo como pela aparência, eu construía outro igual. Quando não tinha o modelo eu pedia a planta emprestada, copiava e construía um ou mesmo dois. Construí também vários modelos de plantas que amigos compravam, para mim, do catálogo da revista Model Airplane News.

           O detalhe que eu achava muito bom da ACA lá do autódromo, era que se podia voar qualquer dia da semana e sair quando já estava escuro. Tinha um cara bacana, que tomava conta do local, chamado Paulinho, que vendia lanches, combustível e naturalmente kits, peças etc. O preço dele era bem mais em conta do que os das lojas. Na realidade ele vendia o material que alguns sócios traziam do exterior e ninguém ficava sabendo de quem era. Aconteceram algumas divergências e a ACA teve que sair do local.  A ACA voltou para o Campo dos Afonsos, agora com o Musal, onde está até hoje e que espero nunca mais saia de lá.

             Com o aparecimento dos kits já quase prontos e prontos para voar (ARF e RTF), ficou muito mais rápido voar. O tempo entre ter em mãos um kit ARF e o dia do primeiro voo foi reduzido drasticamente. A grande maioria quer mesmo é voar. Construir corretamente requer uma série de aptidões que não são atributos de muitos, sem contar a falta de tempo de todos.

          Casei em 1980 e julguei melhor interromper os estudos de Engenharia Mecânica. Logo após o casamento, o ritmo no hobby ficou reduzido.

          Em 1985 comprei uma casa bem espaçosa e tive então a oportunidade de construir a minha primeira tão sonhada e desejada oficina. Eram dois andares de 10,0m x 3,0m. Enchi as paredes de prateleiras. Construí bancadas, encomendei outras tantas.

         Um aeromodelista sem oficina, sem um espaço para construir é um aeromodelista capenga. Fica sempre faltando alguma coisa. Ainda mais quando se é casado. Com uma oficina, mesmo bem pequena, você adquire a sua liberdade aeromodelística. E a primeira coisa a fazer é proibir ou limitar educadamente as incursões da D. Maria na sua oficina. Ela nunca pode saber ou mesmo ter conhecimento do tudo que você possui, pois você sempre estará precisando ou desejando um novo modelo ou qualquer outro acessório para aeromodelismo. E, de uma maneira geral, todas elas nunca entendem porque você está sempre comprando ou construindo um novo modelo e passa horas e horas na oficina sem dar atenção para elas. Já imaginou se ela fica controlando todo o seu estoque? Para mim, esse é o único tabu do hobby. Esposa feliz é a esposa que não sabe quantos modelos o marido tem ou quanto custa cada um.

         Quando a minha esposa passou a reclamar das coisas e do custo do hobby, eu resolvi logo o problema: Fui morar com tudo o que existia dentro da minha oficina e ela ficou dona de tudo o que existia dentro do nosso apartamento. Brincadeira, o motivo de eu ter me separado foi outro, mas a existência dos aeromodelos e a continuação no hobby ficaram plenamente garantidos. Quando os meus dois filhos passaram a ter entendimento das coisas, quatro anos em diante, eles passaram a ganhar além dos presentes que eles queriam, as coisas que eu desejei quando era pequeno e nunca tive, tais como bicicleta (para ganhar uma em um sorteio fiz até promessa, mas mesmo assim não fui sorteado), carro de controle remoto (Colossus e Maximus), todas as marcas de vídeo games e claro Autoramas. Isso mesmo. Muitos autoramas. Autoramas eu devo ter comprado uns seis, sem contar as pistas, os controles e os carros avulsos.

             Eu também passei a levar os dois em uma loja dentro de uma galeria na esquina da Conde de Bonfim com a Rua Uruguai. Essa loja era do Maeda, outro aeromodelista antigo e experiente. Lá existia uma pista de autorama que usava carrinhos desenvolvidos pelo próprio Maeda e que tinham muito mais velocidade que os do autorama original.

             O meu filho Daniel, na época com cinco anos tinha que ficar em pé em cima de uma cadeirinha de praia para enxergar a pista. Ele levava jeito para correr e inclusive chegou a ganhar umas duas corridas. Eu ficava todo orgulhoso quando ele ganhava e ele ganhava com facilidade de garotos com 13, 14 anos. Ele era conhecido e admirado por todos os garotos que frequentavam a pista aos sábados. O controlador do carrinho (o acelerador) foi reduzido por mim significativamente para que coubesse na mão dele.

              Casamento, filhos, viagens e mais viagens, tudo isso culminou com uma redução nas minhas atividades de aeromodelismo. Continuava a assinar publicações mensais americanas (Model Airplane News, RCM Modeler e Flying Models).

Construí muitos aeromodelos com asa de isopor e como a balsa era rara, cara e pesada, usava folha de cedro de carpintaria e cola de contato comprada na Casa Mattos. Era um pesadelo. As chapas de cedro tinham a tendência de enrolar com a aplicação da cola de contato. Qualquer descuido elas se colavam e também rachavam com muita facilidade.

             A potência dos motores era baixa e para compensar isso surgiram os “tuned pipes” ou tubos de ressonância ou pipas que aumentavam consideravelmente a potência dos motores 40 e dos 60 pelo aumento da rotação. Todas eram importadas e claro custavam caro. Então passei a fazer tuned pipes de fibra de vidro. Esses tuned pipes tinham uma vida útil muito curta. Mas eram leves e funcionavam perfeitamente. Tinha todo um trabalho desde o cálculo das dimensões, a preparação da forma em madeira e a aplicação da resina e da manta de fibra de vidro e finalmente o “cozimento” que consistia no funcionando em baixa rotação do motor para a primeira vez de operação.

              Foi por causa do aeromodelismo, na ânsia de entender os artigos daquelas revistas e ter que saber o que diziam as instruções das plantas dos kits, que passei a me interessar por um idioma que eu não gostava e não conhecia sequer uma palavra. Eu me lembro de que nessas revistas, eu anotava as traduções das palavras que eu encontrava no dicionário. Eu sabia absolutamente nada de inglês e em uma frase com vinte palavras era comum eu procurar a tradução para pelo menos 19 delas. Era um sofrimento!. O pior era que eu não encontrava a tradução para muitas delas, como FLITE (flight), KWIK (quick), FLI (fly). Só depois de muito tempo descobri que elas eram as pronúncias de certas palavras. No caso aqui as que se encontram entre parênteses. Sempre serei agradecido ao aeromodelismo pelo nível de conhecimento adquirido para escrever e falar esse idioma que era por mim detestado e desconhecido.

               Em 1992 fui à Disney com a família. Antes, ainda no Brasil, providenciei a compra de dois kits e do recém-lançado rádio JR 347. Comprei também servos e receptores. Devido à tecnologia da JR, era praticamente impossível você sofrer interferências e esse foi o motivo da minha migração para essa marca de rádios. Até hoje esse é o grande diferencial da JR.

Em 2001 eu me aposentei e para comemorar a data adquiri alguns kits ARF, juntamente com motores, rádios etc. A data pedia. A minha então esposa não reclamou.

             Eu nunca me preocupei em saber quantos modelos já quebrei porque é horrível lembrar o momento do acidente e os dias de baixo astral que se seguem. Mas eu já quebrei muitos. Essa é a parte triste do hobby. Fico muito chateado quando quebro um ou vejo um colega quebrar.

           Dependendo do percentual da avaria, vale a pena recuperar. Eu não gosto de consertar os meus modelos. Evito ao máximo. Mas atualmente temos na ACA um colega que é especialista em recuperação de modelos acidentados. Ele é o George. Juntar, recompor e colar aqueles vár  ios pedacinhos de balsa de uma maneira perfeita é o que o George faz com satisfação e perfeição.   Qualquer um de nós que já teve um modelo recuperado por ele sabe muito bem o que eu estou falando.

Agora quando o reparo é em partes de fibra de vidro (polainas, cowlings) e pintura, o papa do assunto é o Maurício. O atual presidente da ACA. Quando, na ACA, descobrimos as facilidades e os baixos preços dos fabricantes e lojas lá da China; as aquisições de aeromodelos e acessórios aumentaram bastante.

            Qualquer coisa relacionada ao aeromodelismo adquirida por lá fica pelo menos com um terço do valor praticado aqui no Brasil. Então, pratico comprar lá na China o montante em dólares que eu compraria aqui no Brasil. Uma maravilha. Quanto mais o valor aqui no Brasil aumenta, mais eu compro por lá. Nos três últimos anos eu montei quase uns vinte modelos desde pequenos para motores elétricos até para motores a gasolina de 85 cc. Ainda tenho uma lista mental de preferências para montar mais uns dez kits que já estão comprados aguardando a sua vez. Tem modelo de 35% de escala, 27% e 42%. Desses, apenas uns quatro não são ARF, são em kit e realmente serão construídos conforme costumamos dizer.

          Em 2012, 2013, tenho voado modelos a gasolina apenas. Modelos 25% (Yak 54 Red Bull), 35% (Extra 260 H9), 42% (Extra 260 Aeroworks). Os modelos maiores são mais fascinantes de voar.

          Após a minha aposentadoria, fiquei apenas um ano sem trabalhar. Saio para o trabalho de segunda à sexta, por volta de 05h30min e retorno por volta de 20h30min. Mesmo assim é muito raro, raro mesmo, um dia de semana que eu não faça nada de avião. Vou à ACA praticamente todos os sábados, domingos e a maioria dos feriados. Vou lá mesmo quando está chovendo. Voar para mim é uma emoção e fascinação que não diminuem ou não perdem nunca a motivação. Pelo contrário, se renovam a cada final de semana. Mas nos dias chuvosos, aqueles papos com os colegas possuem um valor imensurável que lava a alma (sem a água da chuva) de qualquer um que participa deles. A amizade e a camaradagem são valores sempre presentes no nosso convívio.

        O aeromodelismo sempre exerceu uma fascinação em mim. Construir um aeromodelo a partir de uma ideia na cabeça ou mesmo a partir de uma planta é um projeto que quando concluído e o aeromodelo voa sem tendências, faz com que nos sintamos realizados. Infelizmente a vida agitada com várias atribuições diárias e os ARFs reduziram muito essa prática. Apesar de eu possuir alguns modelos na forma de kit, há pelo menos uns cinco anos não construo nenhum.

           Eu também sempre gostei de voos rápidos e na ACA lá do Autódromo ganhei uma corrida de Pylon. A medalha está comigo, mas nunca foi gravada. Estou instalando a eletrônica em uns modelos para velocidade. Dois são elétricos e um é com motor glow.

          Os helicópteros são sempre apenas para montar. São de alta tecnologia. Voar um helicóptero é também um desafio e requer uma dedicação ainda maior que para um aeromodelo. Tenho estado tão envolvido com os aeromodelos à gasolina, que acabei deixando de lado os voos de helicóptero.

           O meu primeiro contato com os helicópteros foi ainda quando não existia a “giro” para auxiliar e estabilizar o rotor de cauda/leme e nenhum auxílio eletrônico. Os modelos “Heliboy” e “Helibaby” eram os mais conhecidos e considerados os melhores, mas mesmo assim voar um deles requeria uma muita perícia ou muito dedo. Aquilo que era adrenalina. Parecia impossível voar um helicóptero sem giro. Mas um americano voou um de dorso (sem nenhum switch de inversão) e com um eixo instalado acima do rotor principal fez um pouso em um orifício de meia polegada de diâmetro em uma mesa.

         Atualmente os helicópteros elétricos atraem muitos praticantes pela facilidade de voo e também pelo preço dos fabricados na China. Tenho alguns helicópteros com motor glow (Kalt, Hirobo e Thunder Tiger) e também alguns elétricos da classe 450.

        Em 2011 adquiri um modelo ARF para turbina a querosene, o Falcon 120. Comprei uma turbina kingtech K-80, com partida a querosene, reduzindo o perigo do uso do gás engarrafado. Comprei servos, retracts pneumáticos etc. Este modelo ficou guardado até 2013, quando resolvi finalmente iniciar a sua montagem, isto é, colocar os componentes e fazer alguns ajustes e modificações. Em 2013 comprei outro modelo a jato. Dessa vez foi o Tornado V3, pronto para voar. Foi montado por uma pessoa em São Paulo. Mas a montagem foi tão mal feita que levei quase dois meses refazendo-a. Este é o modelo a jato que tenho voado. Atualmente (outubro de 2013), o Tornado está com 12 voos completos. O detalhe do “completo” é importante porque refere-se principalmente ao pouso. A pista da ACA tem 92 metros e para pousar modelos com turbina eu a considero no menor tamanho possível. É necessário que o piloto faça o toque nos primeiros 10, 15 metros da pista para evitar que falte pista durante a corrida. O meu modelo possui freios, mas estão desativados porque eles não atuam com a mesma pressão nos pneus e isso acaba fazendo com que o modelo faça um cavalo de pau, amassando/avariando o trem de pouso. Apesar do custo dos modelos a jato serem mais elevados; o prazer e a sensação do voo, no meu entendimento, superam facilmente esse pequeno detalhe monetário. Tenho também um outro modelo a jato, o Viper 2M, para turbinas 100, mas 140 fica melhor; que ainda não está montado.

             Falando agora um pouco de clubes, eu já fui sócio de alguns clubes aqui do Rio. Albatroz de Aeromodelismo, fundado pelo Paulo Romero, CMVM, na vila militar e UFA que foi um clube extremamente organizado e o único que possuía sede própria. Foi obrigado a fechar devido ao crescimento imobiliário de Itaipuaçu, onde ficava localizado. Fui também sócio da AMA (Academy of Model Aeronautics) e do QSAA (quarter scale aircraft association) por mais de cinco anos e nunca voei nos Estados Unidos da América. Esses clubes editavam mensalmente revistas muito boas e repletas de artigos técnicos e novidades Existiram outros clubes como o RCRJ fundado pelo Rodolfo. AIA, na ilha do Governador e ao lado do CENPES da Petrobrás, que quando foi criado eu logo falei que existiria enquanto a Petrobras permitisse e foi o que aconteceu. Teve ainda Manguinhos (em frente ao Instituto Oswaldo Cruz) que não estou muito certo se realmente foi um clube de aeromodelismo. Lá existia um aeroclube. Cheguei a ir lá algumas vezes quando voava U-control.

                Mas a ACA sempre foi, na minha concepção, o melhor deles. Possui uma área livre ao redor da área de voo incomparável e a segurança é a de uma base militar. Conversar, discutir assuntos técnicos ou mesmo assuntos sem nenhuma importância a cada final de semana com todos os amigos não tem preço. Acredito que esse é o mesmo pensamento para vários colegas ?

           Atualmente moro em um apartamento de dois quartos, apelidado de paiol pela minha namorada. A sala é bem dividida. Os aeromodelos glow ficam à esquerda de quem entra e os à gasolina ficam à direita. As paredes estão perfeitamente ocupadas por prateleiras onde ficam algumas fuselagens. Com kits, pacotes de balsa, pacotes de monokote, compensados, asas penduradas e galões de combustível harmoniosamente distribuídos, se forma um corredor suficiente para se transitar e também para conduzir novas caixas de kits para os outros cômodos, pois na sala não existe mais espaço. Em um quarto eu construo, monto os kits e guardo algumas asas. O outro quarto é onde tenho uma escrivaninha, um computador e alguns pequenos móveis para guardar roupas, mas como isso não ocupa todo o cômodo sobra espaço para guardar motores que ainda estão nas caixas e fazer alguns ajustes no final da construção de um aeromodelo. O único cômodo que não tem nada de aeromodelos é o banheiro. Uso também outro apartamento para guardar mais alguns kits.

                Os kits para motores à gasolina fizeram com que eu adquirisse uma carreta ou reboque para transportá-los. Modelos a partir de 27% não são de fácil acondicionamento em qualquer carro. Com a carreta, os modelos não precisam ser removidos após o retorno para casa e não existe mais aquele odor de gasolina no interior do carro.

                Já exerci um mandato de Presidente na ACA e foi um período que eu não gostei, porque dificilmente sobrava tempo para voar porque sempre existiam muitas atribuições e problemas para serem resolvidos.

              A ACA é o clube mais antigo do Brasil, ou melhor dizendo, o primeiro clube de aeromodelismo do Brasil e exerce um misto de encanto e magia inexplicável em mim cada vez que passo pela guarita do primeiro hangar em direção à pista de voo.

           Deixo aqui o meu agradecimento ao colega Maurício, atual presidente da ACA e filho do saudoso Dagoberto, pelo convite de narrar estes fatos. Também não poderia deixar de agradecer aos colegas Eduardo, Marcio, Jean, Roberto, Cesar, George, Paulinho, Tiago, Capote, James, Michel, para citar alguns e todos aqueles com os quais eu me relaciono a cada final de semana para praticarmos e discutirmos esse hobby-esporte maravilhoso. Sem os amigos, é claro que o hobby não seria o mesmo.

            Todos os aeromodelistas têm por obrigação e motivos óbvios saberem que “O POUSO É A ÚNICA MANOBRA OBRIGATÓRIA”, sendo assim; desejo a todos ótimos pousos SEMPRE.

Para finalizar, agradeço a paciência dos que leram todo o artigo e peço desculpas pelos possíveis erros de português.

Isaac.
ACA 101
R 08
BRA 792

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Associação Carioca de Aeromodelismo